Numa estrada de Minas, pedregosa:
ao encalço de Drummond

Capa do Livro Numa estrada de Minas

Sinopse

Numa estrada de Minas, pedregosa: ao encalço de Drummond apresenta uma coletânea de poemas e prosas de Milton Rezende que estabelecem um diálogo profundo e confessional com a herança literária de Carlos Drummond de Andrade. Na obra, Milton explora temas como a solidão, o envelhecimento e a busca pela identidade mineira, fundindo memórias pessoais em Ervália com referências clássicas da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa e Machado de Assis. No entanto, o protagonista aqui é, do começo ao fim, Drummond, sobretudo o Drummond poeta.

A obra revisita o erotismo tardio e a melancolia drummondiana, transformando a influência do mestre em uma ferramenta para investigar a própria finitude. Entre genealogias familiares e reflexões sobre o fazer poético, Milton Rezende utiliza a intertextualidade para narrar sua trajetória de quarenta anos de literatura. O resultado é um mosaico íntimo que homenageia a tradição de Itabira enquanto expõe as ruínas e sonhos de um poeta contemporâneo.


PELAS ESTRADAS DE MINAS: O LEGADO DE ITABIRA NO HORIZONTE DE ERVÁLIA

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Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, é o arquiteto de uma identidade nacional que transformou o minério de Itabira em poemas universais. Sua trajetória — a migração das montanhas ferrosas de Minas Gerais para o modernismo cosmopolita do Rio de Janeiro — estabeleceu uma genealogia poética que ainda assombra e alimenta a literatura brasileira. Drummond carregou Itabira na sola do sapato, fazendo do isolamento provinciano a matéria-prima para o seu “sentimento do mundo”.

Neste cenário de permanência, surge a obra de Milton Rezende. Em Numa estrada de Minas, pedregosa: ao encalço de Drummond, o autor ervalense não se limita a uma homenagem ou influência passiva. Ao contrário, ele opera uma apropriação antropofágica do mestre itabirano. Milton estabelece uma tensão dialética entre a tradição de Drummond e a realidade de Ervália dos séculos XX e XXI, revisitando o “gauche”, o cotidiano e a província como feridas abertas que pulsam sob o solo vermelho da Zona da Mata.

A persona poética de Drummond cristalizou-se no “anjo torto” do Poema de Sete Faces. O “gauche” drummondiano é o indivíduo que caminha na sombra, marcado por um desajuste social e uma timidez que o impede de se integrar plenamente à engrenagem do mundo. No entanto, ao atualizar essa estética do desajuste, Milton Rezende radicaliza a inadequação, transformando o deslocamento social em uma pulsão de aniquilamento existencial.

Enquanto o “eu lírico” de Drummond se observa com ironia melancólica, o “eu lírico” de Rezende, especialmente em “Dias de chumbo”, busca uma dissolução visceral:

Minha vontade é me dissolver
destruir minha personalidade.
Se houvesse algum ácido ou sal
que eu pudesse ingerir
e que me libertasse,
não do outro que há em mim
(monstro de ternura e culpa e parte
diferente, ainda que irrisória,
do meu processo de embrutecimento).
Mas que me livrasse de mim mesmo,
da vida que tenho levado até aqui,

aniquilando enfim essa coisa amorfa
que não se sustenta nem se suporta e que
no entanto teme a morte ou o esgotamento
da provisão do seu elemento de fuga.

Há aí um desejo de aniquilação química: a voz poética clama por “algum ácido ou sal” que a liberte de si mesma, visando destruir a personalidade e aniquilar a “coisa amorfa” que é o eu.

Em “Paródia ao brasileiro de Drummond”, Milton Rezende subverte o ritmo drummondiano para admitir um esgotamento total:

Eu também já tive meu ritmo.
Escrevia isso, publicava aquilo.
E meus amigos se afastaram,
meus inimigos me ignoravam.
Eu sozinho deslizava
orgulhoso de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.

Hoje não escrevo mais não,
não sou orgulhoso mais não,
não tenho nada mais não.

A Drummond, a crônica serviu como um “pacto” com o leitor, uma ferramenta que democratizava a poesia e a literatura ao tratar de eventos triviais, do “nada” cotidiano, nas páginas dos jornais. Milton Rezende adota essa “lição de coisas”, em coletâneas e sites diversos, mas a fundamenta em uma densa carga hereditária.

Ao descrever Ervália, o poeta resgata a “concentração das idiossincrasias” da Casa dos Ferreiras, onde a atmosfera é carregada de “pragas, lamentações, queixas e suspiros profundos” ao redor de um fogão de lenha. Essa conexão entre o trivial e o ancestral é o que permite a Milton Rezende descobrir-se a si mesmo:

Ali o relógio do tempo havia parado e ninguém pensava nas origens de nada, além de uma certa raiva e o sorriso amargo da própria desgraça. Desta genética dos Ferreiras não herdei apenas as ideias, mas também as dificuldades, próprias aos temperamentos discrepantes e imaginativos.

O poeta descobre-se a si mesmo, em diálogo insubmisso com o mestre e seu(s) passado(s), e ao descobrir a si mesmo, descobre que “Não se deve fazer / poesia assim como eu faço. [...] Eu sei, / e faço”.

Milton Rezende, assim como Drummond, é desobediente às regras, explícitas ou subentendidas.

Para Milton, o aprendizado da vida é indissociável da aceitação da finitude, uma “morte necessária” para que se possa, enfim, usufruir da beleza efêmera, como escreve em:

é preciso ir morrendo
pra aprender a gostar
da vida e tentar
(quando não é mais possível)
usufruir da beleza da água
que acabou de passar.

Milton Rezende prova que a estrada de Minas é contínua: sua poesia não é um eco distante de Itabira, mas uma atualização visceral que “devora” Drummond para nutrir as sombras de Ervália. Através dessa apropriação, mantém viva a chama modernista, demonstrando que o “sentimento do mundo” permanece tão urgente e doloroso quanto no século passado, pois é um sentimento demasiadamente humano, demasiadamente mundano.

Sinvaldo Júnior

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Dias de Chumbo

Minha vontade é me dissolver destruir minha personalidade. Se houvesse algum ácido ou sal que eu pudesse ingerir e que me libertasse, não do outro que há em mim (monstro de ternura e culpa e parte diferente, ainda que irrisória, do meu processo de embrutecimento). Mas que me livrasse de mim mesmo, da vida que tenho levado até aqui, aniquilando enfim essa coisa amorfa que não se sustenta nem se suporta e que no entanto teme a morte ou o esgotamento da provisão do seu elemento de fuga. “escurece e não me seduz tatear sequer uma lâmpada” Carlos Drummond de Andrade

Passando a Limpo

Inspirado no poema Procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade. Não se deve fazer poesia assim como eu faço. A poesia não deve ser nunca um desenlace, uma saída para o impasse. Não se deve fazer poesia assim como eu faço. Poesia é certeza de conceitos, de imagens e eu não sei de nada, apenas acho. Não se deve fazer poesia assim como eu faço. Não convém só falar de si mesmo, o tempo todo. O mundo, eles dizem, é muito vário e vasto. Não se deve fazer poesia assim como eu faço. A poesia, eles ensinam, deve ser rápida e concisa e não derrame verborrágico. Não se deve fazer poesia assim como eu faço. Se situar no tempo e no espaço, fazer versos de memória e resgate. Nada que seja residual porque poesia não é inventário e se assemelha à realidade virtual. Não se deve fazer poesia assim como eu faço. A poesia não deve ser nunca uma alternativa ao suicídio. Eu sei, e faço.

Testemunho de Arquivo

com subsídios de Carlos Drummond de Andrade. Busco na noite a tua imagem em perspectiva calma. Embora essa calma seja como a dos condenados que na impossibilidade da vida, para a sombra caminham resignados. Deixo-me ficar em perfeita sintonia com essa tua imagem volátil, que utilizando de objetos opacos se dissimula e se esconde. E quando meus olhos míopes e cansados da inspeção obstinada se perdem na transparência dos astros, a tua imagem sutil volta novamente a brilhar sobre a quietude dos sonhos adormecidos. Então revolves em mim tantos e velhos enigmas que em pensamento me pergunto, embora voz alguma possa articular os rijos lábios na espera diária pela consumação do que na vida chamamos realidade ou simples imposição de conceitos. Mas na eternidade desse momento em que houve vislumbre de esperança em tua face diáfana, não dissemos palavra sequer que pudesse atestar a possibilidade do sonho à revelia das atitudes mecânicas assumidas no cotidiano para se sobreviver ante ao impacto do eclipse inevitável. Também nenhuma atitude extrema não nos permitiu provar o contrário, e quando houve um silêncio maior e ásperas se tornaram as palavras, foi mais uma tentativa de conciliar os destinos em face a um sonho comum e obscuro. A noite continua banhando a superfície translúcida e aparentemente calma das águas, e talvez o amanhã possa aprofundar nossa visão rumo a essa verdade líquida e gotejante que tão intensamente se fez necessária.

1902 - Drummond - 1987

Aqui jaz a poesia em sua forma mais plena e vigorosa. Não há, no mundo, notícias de que ela tenha sido melhor cultivada do que nas terras ferrosas dos canteiros de Itabira.

Estatuto de Ervália

Baseado no poema Casa, de Carlos Drummond de Andrade. Há de dar para o Santo Cristo, de poder a poder. Na praça, a matriz, de poder a poder. Ter vista para o Cruzeiro no alto do Santo Antônio, de poder a poder. Casas e árvores comandando a paisagem. Há de ter muitos espaços de portas sempre abertas ao olho e pisar do povo. Poeira e barro da estrada nas salas de visitas. Rio Turvão nos fundos dos quintais preservando os segredos da infância e os cadáveres de família, sepultados. Terá um verde pasto com o Herval escrito no letreiro conservado, sintetizando o sonho do novo e do antigo afinal reconciliados nas distâncias encurtadas: fogão de lenha e internet. Cidade de muitas lembranças (“e renda de picumã nos barrotes”), lavouras em curvas de nível e indústrias nascendo do esterco. Ervália erguida no trabalho coletivo, flores aliviando o suor e o cansaço dos homens, recompensados da sede, da fome e do frio e do convívio com os mortos. E as crianças que brincam resgatando o passado no presente infinito. E que todas as pessoas esperem o dia seguinte e a Biquinha alimente a sede dos projetos futuros. Ervália há de ser tudo isso, mais o que sonhamos, mais os poemas dormidos, mais a água da chuva nos vidros, mais os desenhos das nuvens, mais tudo o que brota deste solo vermelho e um sol filtrado através das folhas de bananeiras e das cercas de arame farpado. E que todos os ervalenses escrevam a história de uma terra que seja a casa de todos, do contrário não será nunca a nossa cidade que somos e que amamos ser, na distância do encontro e no silêncio (Careço) das almas.

Considerações a Respeito do Homem

Drummond revisitado. Os homens não sabem que são homens se soubessem, rejeitariam o nome. O homem desconhece o outro homem que vive dentro ou fora dele e que nunca foi visto. O homem e o absurdo de ser homem. O homem não tem consciência do que viria a ser o homem em sua acepção genérica. O homem é o estereótipo do homem. O homem é específico como o bicho pior que isso, é dual é indivíduo e social. O homem não suporta o peso de ser homem. O homem não tem importância alguma para o próprio homem. O homem e o desespero de ser homem não sendo, na ilusão de ser. Os homens quando reunidos em sociedade não formam um todo, sequer uma parte. Formam apenas uma irmandade a caminho do nada. Um homem não destruirá um outro homem. A arte, tenho esperança, humanizará o homem.

Paródia ao Brasileiro de Drummond

Eu também já fui brasileiro cidadão como vocês. Dedilhei guitarra, guiei voyage e aprendi na porta dos bares que a ideologia é uma ilusão. Mas chega um tempo em que os bares se fecham e todas as esperanças se perdem. Eu também já fui poeta. Bastava olhar para estrelas, pensava logo em mulher e outros instintos selvagens. Mas eram tantas, no céu distante, minha poesia perturbou-se. Eu também já tive meu ritmo. Escrevia isso, publicava aquilo. E meus amigos se afastaram, meus inimigos me ignoravam. Eu sozinho deslizava orgulhoso de ter meu ritmo. Mas acabei confundindo tudo. Hoje não escrevo mais não, não sou orgulhoso mais não, não tenho nada mais não.

A Dissolução do Mito

Toda história é remorso, dessa forma Orfeu perde e recupera Eurídice, contínuas vezes, e ela sempre lhe escapa na cambraia da cama como um fantasma gestado na irrealidade dos fatos. Inútil tentar reavivar os grandes amores com a tocha olímpica da sede insaciada, pois sempre se olha para trás e constata a perda infinita e renovada que dissolve na escuridão dos sonhos. Toda história de amor é a história de um anseio que apaga o fogo quando, absoluto, ergue-se o medo pelo preço do resgate e fixa-se na memória a imagem de uma estátua suja de sal e de desespero póstumo do adeus. “Enquanto eu, avaliando o que perdera, Seguia vagaroso, de mãos pensas” Carlos Drummond de Andrade

A Falta que Ama

Drummond nos ensina a recompor a vida na linguagem simbólica em percurso saudades da infância no morro dissolvido: cinzas do Cauê.

Confidências de um Ervalense

com subsídios de um Poeta Itabirano. ...de Ervália trouxe prendas diversas que ora te ofereço: este velho balaio feito pelas mãos do Aleijadinho da Vila, esta compra de embornal direto da venda do Joãozinho Bertoldo, esta vergonha, esta cabeça baixa. tive uns dinheiros, tive uma novilha, tive sítios orvalhados. hoje sou funcionário público aposentado. Ervália é apenas uma capa de Antologia, mas como dói.

Corpo

foi preciso que eu fosse envelhecendo para entender (em parte) o erotismo tardio nos poemas de Drummond. é que precisamos ir perdendo para poder reconquistar. é preciso ir morrendo pra aprender a gostar da vida e tentar (quando não é mais possível) usufruir da beleza da água que acabou de passar.

Drummond Revisitado

Stop. a vida parou ou foram os relógios?

Retorno ao Final

protagonista de minha vida pregressa hoje sou coadjuvante de ruínas. nas águas do rio fiz algumas tentativas mas acabei afogando na correnteza. mudei de fase: virei pescador de sonhos frustrados à beira dos barrancos. galopei como quem sonha por estradas poeirentas de Minas Gerais, sozinho. empinei pipas e papagaios em céus nevoentos de minha infância distante. virei (ou tentei virar) compositor de vanguarda e fiz parcerias utópicas com célebres defuntos. amante de belezas glaciais as mulheres passaram por minha vida como barcos à vela naufragados. fui poeta das condolências em velórios de interior quando o defunto era o que menos importava. candidatei a representante do povo, mas não tinha propostas viáveis no bolso da algibeira rota e furada. “meu Deus, por que me abandonaste? se sabias que eu não era Deus, se sabias que eu era fraco” Carlos Drummond de Andrade

Poema Sobre Trechos de Drummond e de Augusto dos Anjos

“já não adianta procurar minha querida filha (Maria) Luiza que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo com inúteis pés fixados, enquanto sofro e sofrendo me solto e me recomponho e torno a viver e ando, está inerte cravada no centro da estrela invisível Amor.” Carlos Drummond de Andrade os prestadores de serviço chegam em minha casa e não percebem a minha presença opaca. se dirigem aos outros moradores e os saúdam com apertos de mãos e acenos de cabeça. não faz mal habito o reino das sombras onde impera o trono do caos. mas não estou só e toco com luvas de pelica a “palidez das fotosferas mortas” ao meu lado (igualmente invisível) está a minha filha Maria Luiza que me faz companhia. “e repousa em meu ombro o seu ombro nenhum” e seguimos juntos por entre estrelas invisíveis

Claro Enigma

Chovia. E a música folk me induzia a dedilhar um passado de nostalgia. Eu estava fotografando um cemitério para selecionar as fotos que entrariam na versão final do livro fúnebre. Anoitecia. E a pintura escura me impelia a encerrar logo o trabalho, faltando ainda algumas covas próximas ao muro da parte de cima, mais ou menos a duas alas antes de se chegar na escada. Amanhecia. E eu alucinado, pois havia reconhecido uma catacumba de uma moça bonita falecida há pouco e eu não sabia: quis aproveitar o momento único na terra fofa que envolvia o corpo.

As Impurezas do Branco

Debaixo do espelho das águas uma silhueta de menina desliza de biquíni azul na parte rasa da piscina. Seus longos cabelos de cachos castanhos alisados pelo cloro introduzido no pensamento obsceno de quem observa. Mas nem tudo era azul sob a epiderme manchada de um sol que abrasava as partes brancas e imaculadas do ladrilho lavado todos os dias.

A Visita

De súbito a chuva cessou. Ponho-me a escrever sobre ti, criatura sem carne que me visita. Não sei de onde vens, mas sempre chegas nas horas mais extenuantes de minha fuga. Fecho portas e janelas para não te permitir livre acesso sobre mim, que de cansado me basto. Mas tu me vens sem ser chamada e mesmo sem chegar em forma clara, sei que és minha consciência, e te incorporo.

Fogo-Fátuo (Ignis Fatuus)

“e ficam tristes e no rastro da tristeza chegam à crueldade” Carlos Drummond de Andrade fica estabelecido que os meus concidadãos, mesmo aqueles que moram em águas-furtadas serão livres à maneira deles. fica estabelecido que apesar do sonho já ter acabado desde o anúncio de John Lennon, será permitido às crianças. “deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor eu vou dizer novamente “deus é um conceito pelo qual medimos nossa dor.” essa é a realidade!

Tristeza no Céu e na Terra

“No céu também há uma hora melancólica. Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas. Por que fiz o mundo? Deus se pergunta e se responde: Não sei.” Carlos Drummond de Andrade cinco anos de negociação sobre a venda de uma casa exauriram as minhas forças. antigamente havia um pé de coqueiro que, ao cair, num dia de tempestade atravessou o quintal. caiu enviesado no terreiro. era alto e bonito, porém, vulnerável e com o tempo as suas raízes fibrosas perderam o contato com o solo e com a realidade dos fatos. aquelas raízes ficaram então soltas como braços suspensos no vácuo e, sem sustentação auxiliar, num dia, o coqueiro tombou atravessado diante dos olhos infantis pasmos e incrédulos. caiu como um marco divisório e não percebemos que ali estava a lição da partilha igualitária e harmônica entre oito. (depois, com o dinheiro nas mãos, faríamos as devidas compensações). folhas para um lado, cachos para outro e os coquinhos alimentavam a todos em nosso apetite juvenil. agora que já somos velhos nós não retiramos os entraves de uma partilha necessária e urgente, posto que o tronco simbólico do coqueiro caído impedia o livre fluxo do que somos. era a “insustentável leveza do ser” como disse o Milan Kundera e a família se desbota e perde o vinco e de fora a fora, nada se sustenta.

Nova Noite

“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto: que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”. Guimarães Rosa O limite são os meus pulos. A estampa nos meus lábios. Aquele trauma em meu não. O meu amor rompe a noite nova. O meu inimigo dentro de mim. E a mesma ausência, sempre. Sou o enterrado vivo do poema do Drummond.

A Origem dos Ferreiras Ou a Descrição de um Estado de Espírito

“Conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascença e a vida esgarça”. Carlos Drummond de Andrade UM POUCO DA GENEALOGIA “Por volta de 1170 eu tinha um longínquo ancestral chamado Dom Álvaro Rodrigues Ferreira, rico-homem do reino de Leão, senhor de Meilas, hoje Mancille de La Serra, em Castela-a-velha, o qual se diz ter sido meirinho de Leão, senhor do Solar da Vila de Ferreira, ainda hoje denominada de Herrera de Rupisverga, nas Astúrias, em Santilhana, na Espanha. Seu filho, Dom Fernando Álvares Ferreira, viveu em Portugal no Paço de Ferreira, situado na freguesia de S. João de Eyris, concelho de Aguiar de Sousa, comarca do Porto, província do Minho; e serviu ao rei Dom Sancho I, de quem foi rico-homem e dele recebeu em mercê muitos herdamentos no referido concelho. O brasão de armas da família foi concedido aos Ferreiras em 1170”. A CONCENTRAÇÃO DAS IDIOSSINCRASIAS Já no final do século XX, em Ervália, nas Minas Gerais do Brasil, no bairro São Pedro, havia a remanescente “Casa dos Ferreiras”, local de contação de histórias e de aprendizado: avós, tios, primos e sobrinhos sentavam-se ao redor do fogão de lenha, sobre bancos de madeira e tomava-se café em canecas de alumínio penduradas sob ganchos fincados na madeira numa espécie de sanefa. A atmosfera era pesada e engraçada: pragas, lamentações, queixas e suspiros profundos, intercalados, cortavam o ar enclausurado. Ali o relógio do tempo havia parado e ninguém pensava nas origens de nada, além de uma certa raiva e o sorriso amargo da própria desgraça. Desta genética dos Ferreiras não herdei apenas as ideias, mas também as dificuldades, próprias aos temperamentos discrepantes e imaginativos.

A Origem dos Rezendes Ou a Ironia não faz mal a Ninguém

“Conserva em mim ao menos a metade do que fui de nascença e a vida esgarça”. Carlos Drummond de Andrade UM POUCO DA GENEALOGIA “Por volta de 1030, Dom Rosendo Hermigiz, bisneto do 6º rei de Leão, Dom Ramiro II (falecido no ano de 950), se estabelece em Beira Alta (Portugal), nas terras que recebeu do rei D. Fernando Magno, por tê-las conquistado dos Mouros. É o primeiro senhor cristão a povoar a região, que recebe seu nome (Rosendo), fundando aí a casa e a Quinta do “Paço”, que deu lugar ao povoado. O primeiro a utilizar a forma “Resende” como apelido, tomando-o do lugar de que era senhor, foi Dom Martim Afonso de Bayão, o “de Resende”, também descendente do rei Ramiro II. Afonso Rodrigues de Rezende, sobrinho de Dom Martim, recebeu o brasão da Família Rezende do rei de Navarra, Felipe III”. A DISPERSÃO DA ENERGIA Por volta de 1962, Milton Carlos Ferreira de Rezende, tataraneto de José Pereira de Rezende (nascido no ano de 1802), nasce em Ervália (Minas Gerais), nas terras que recebeu o nome em homenagem ao Marquês do Herval, militar gaúcho que se destacou na Guerra do Paraguai. É um dos poucos poetas a frequentar a região, e herdou do pai o nome; que recebera ali a casa e um sétimo da “Fazenda São Domingos”, no município de Araponga (MG). O primeiro a utilizar a forma “Ferreira Jr” como pseudônimo foi ele, tomando-o emprestado da família do Causolino, seu avô materno. Milton Carlos Rezende, o “Dierval”, também descendente dos Andrades, recebeu a instrução primária no Grupo Escolar Capitão Américo Taveira e, desde então, escreve versos para inaugurar uma nova fase.

Propriedades Organolépticas

“ao nosso redor é possível distinguir várias cores, mesmo quando estamos sob a luz do Sol, que é branca” não me sinto em casa nesta casa. ao sair ou ao entrar não vejo mais a placa “coragem” a nos encorajar na luta brava e aflita da cidade rude. na parede da sala não vejo mais os 3 pratos de barro com desenhos primitivos e o quadro do “cangaceiro” e os panos costurados na velha máquina que foi da minha avó, funcionando ainda. na cozinha o quadro de gesso representando a santa ceia numa época em que eu saía para ganhar o nosso pão de cada dia, hoje substituído por empréstimos bancários ou mesmo algumas doações familiares. o sino dos ventos, o relógio de parede (lembranças de Ouro Preto), o aparelho de som que tocava: poderia ainda tocar as canções de rock’in’roll em discos de vinil e o menino Jesus de Praga de pescoço colado. o pequeno aquário com a sua legenda do século XIII, de autoria desconhecida colada no vidro vazio: “o peixe sabe de tudo e nada”. o Jesus Cristo “hippie” num quadro sobre a porta do banheiro, sem a sua famosa cruz de madeira pesada. as antigas máquinas datilográficas (eram três) esperando que dedos saudáveis escrevam outros versos no tic-tac varando a madrugada a martelar poesia. o viveiro já vazio, abandonado sob alguma cobertura de telhas de amianto sem emitir nenhum som, de ave, de sonho, ou lembrança da infância. a ampulheta, a velho violão preto, a kombi de brinquedo a nos lembrar do Enrico. no escritório exclusivo o quadro dos Beatles numa moldura sob vários ângulos, com eles atravessando a Abbey Road, o rádio de madeira, a foice amolada para alguma eventualidade. o violão desafinado nunca mais tocado por dedos que nunca souberam ferir as notas musicais e hoje silenciado pela hemiplegia junto com a velhice de moletons. e aqueles lindos banners a me lembrar de quando eu era protagonista da minha vida e não como sou hoje: um coadjuvante de ruínas e a foto do casal na cachoeira sobre placas de pedras cobertas de limo esverdeado. a antiga estante de livros comida por cupins agora atualizada e repaginada num belo armário de madeira entupido de livros e as leituras por fazer e as sequelas do avc. a bonita faca de cabo de madrepérola no fundo de uma gaveta, junto com o punhal que foi do meu pai e seu cabo de metal e lâmina que vai se afunilando até a extremidade finíssima a desafiar, a instigar e a sua visão reconfortante. sabor é aquele de quando se mastiga algo e se esquece de que já não se tem dentes e de suas gengivas escorrem uma gosma purulenta e o seu quarto e a sua cama que são mal-assombrados por contos cabulosos. e ao final e ao cabo a constatação do Drummond: “as coisas. que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase.”

Sobre Sonho e Realidade

O meu sonho de consumo agora se restringe a um kit apagão, com direito a lamparina, lampião a gás, uma charrete e um carro de boi. A minha evolução, como a do Brasil, se dá de maneira a retornar dois passos ao passo dado. Caminho para trás e a minha situação de vida só se degrada. Quando me impulsiono para frente o faço com elástico emprestado que acaba por retesar e me puxar de volta para trás, para trás do ponto de onde eu anteriormente estava. Parece faltar-me uma atitude literária mais concreta e de como nosso pequeno espaço de homens silenciosos vai se diminuindo. Penso que na verdade nós também temos diminuído muito juntamente com a perda do espaço de refinamento estético-literário-artístico-musical do qual falamos. Temos diminuído porque os espaços estão se restringindo ou os espaços estão se restringindo em função da nossa dissolução? Não sei, há muito que só faço flutuar na piscina dos acontecimentos sem jamais conseguir tomar pé das coisas. Se parei de escrever em grande parte foi porque parei de sentir as coisas com o pensamento. Sinto tudo de uma forma vaga e com os sentidos apenas. Meu pensamento agora é um pântano disforme e então eu bebo para acabar de dissolver os últimos neurônios sensitivos do pensamento remanescente. Deito e ouço o som de patas de cavalos na rua. São muitos e parecem fazer parte de uma procissão macabra. Outro dia sonhei que estava num sítio e que pegava as coisas da roça tipo ovos, frangos, verduras, porcos e passava tudo para um disquete de computador e depois formatava-os. Aquela história do “no elevador penso na roça e na roça penso no elevador”. Não sei, estarei ficando louco? Impossível, pois sou limitado demais para sair de mim mesmo seja a que título for. Um ser insulado é um ser insulado e eu nunca passarei disso. Ah, quem dera que eu pudesse me derramar de alguma forma, sair de mim e nunca mais voltar. Fechar a porta com chave porque na verdade eu não gosto do meu lar em mim. Eu decepciono-me comigo a cada dia e a toda hora, mesmo agora. Entretanto eu ando lendo em cursivo medieval e vertendo para o português corrente a fantástica obra Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred.

Tudo Somado Devias

atual estágio terminal da minha vida: tragédia anunciada e criada por mim, num entrelaçar de dúvidas invariavelmente adiadas para fora de todo o tempo e lugar, a precipitar-me de vez nas águas claras.

O Radioamador Fantasma

reuni a turma para o trabalho de desagravo do casal que fora enganado pela “mão grande” do grileiro Waldir a ordem era clara rapto seguido de tortura e morte com subsídios de Reinaldo Domingos. chamei pelo rádio que eu operava em PX2 na minha cabine desativada desde a minha morte, que ninguém ainda tomara conhecimento os homens carregam a raiva e a crueldade, mas os defuntos carregam mais, pois tudo sofreram e sabem e é um ódio seco e cego que não admite condescendências a convocação surtiu efeito e logo eles foram aparecendo: Pitimbado Tijolo Pé de borracha Asa de canela Tubarão Munheca quebrada Pirata Trovão Mata rato Laranjinha Pé de boi Lobão Bombeiro Munheca de pau Pássaro solitário Escuna vermelha Pé de vento Fórmula pesada e Macanudo esparadrapo vieram todos, sem defecções, e já queriam saber do serviço na ânsia de se fazer justiça com as próprias mãos antes o kit básico de apresentação a ser entregue à vítima, assustada, antes da parte mais terrível da história cartões de saudações chaveiros diplomas de conteste adesivos camisetas bonés e logo em seguida o tal Waldir já seria “pó e pus no arame” da cerca que ele não respeitou naqueles dois lotes que ele roubara em Jacutinga. ficarão, de mostruário, em Sapucaí a cabeça e o corpo escalpelados e empalados como flâmulas.

Cinderela

a menina de pijama roxo olha para o lado direito e conversa comigo nos meus sonhos de criança e ela conta uma história verídica acontecida há muitos anos naquela casa lá na Capivara “era uma vez, no reino do impossível, em que a menina saiu de sua casa para encontrar-se com o poeta que vivia preso na sombra que ela projetava através da fotografia, quando estava sentada em sua cama de princesa levantou do seu sono de anjo e, na pressa de sair, esqueceu-se de trocar de roupa e assim foi parar naquele ponto de ônibus com seu pijama roxo e os cabelos presos, pois estava muito frio e com a grama verde orvalhada o poeta morava no pântano e ficou feliz com aquela visita inesperada, e depois de tudo até fez um poema pra ela mostrar lá na escola, mas na roça daquela época não tinha escola e então ela colocou no seu balaio” A poesia era mais ou menos assim: tinha uma ponte no meio do caminho no meio do caminho tinha uma ponte tinha uma ponte e essa ponte era uma fonte de luz que brotava da pedra que havia no meio do caminho do poeta mas na hora da travessia soaram as doze badaladas e a menina do pijama roxo voltou para o seu quarto, e quando o dia amanheceu ela já não se lembrava de nada e falou que aquilo era só uma blusa rosa o poeta que vivia escondido no pântano sorriu e todos foram enfrentar a realidade, e o retrato permaneceu ali alimentando os sonhos nossos de cada dia enquanto a vida geral prossegue se era blusa ou se era pijama nada disso importava (nem mesmo a sua cor) para o reino do impossível em que estamos pisando.

Configurações

Acordo sempre e invariavelmente às 3 h da madrugada. Geralmente é sede e vontade de ir ao banheiro. Lavo meu rosto e no espelho quebrado a minha cara está uma lástima. Daqui há pouco o celular irá despertar, e se paro um pouco pra pensar na vida a minha vontade é de desativar todos os mecanismos que conspiram com a manhã seguinte. “O essencial é viver” mas dói abrir os braços e não encontrar você.

Este Meu Livro

“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco”. Machado de Assis esse livro que eu venho escrevendo e que, provavelmente, deverá ser o último da minha carreira como poeta e escritor, e para o qual estão faltando 10 poemas que espero concluir ainda este ano de 2026, sem esquecer a lição do Drummond: “não forces o poema a desprender-se do limbo”. é que nesse corrente ano eu completo 40 anos de estrada literária, desde a minha estreia em 1986 com o livro “O Acaso das Manhãs”, daí que eu pretendo publicar este novo livro ainda este ano para marcar esse acontecimento. Será que eu terei os cinco leitores esperados pelo Machado de Assis, já que os cem imaginados por Stendhal seria uma meta muito ambiciosa para este “rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”? cest’la vie.

Pânico na Avenida II

As situações de vida em minha ex-cidade são como fantasmas no espelho nostálgico da minha memória. É o mesmo que ausente percorrer um casarão tombado pelo patrimônio e tombar realmente, numa queda surda e repleta do pó da história. Em minha antiga rua havia ao menos rostos antigos a andar na rua. E eu era um deles hoje sou incógnita e não me reconheço na paisagem insólita. À noite o sono é vigília nas figuras das paredes do meu escritório. Drummond, Beatles e Lula fixam-me de suas molduras enquanto eu sonho estar longe. Fora isso a vida transcorre inexorável rumo ao seu desfecho.

Livro na Gráfica

o penúltimo livro de minha carreira segue para a gráfica já não se usa a linotipia como método de impressão, mas fica a sensação de algo que perdemos na correria do final dos tempos. que seja! “vem da sala de linotipos a doce música mecânica” Carlos Drummond de Andrade

Sobre um Mote de Drummond

“saí pensando na morte, mas a morte não chegava. andei pelas cinco ruas, passei ponte, passei rio, visitei vossos parentes, não comia, não falava, tive uma febre terçã, mas a morte não chegava. fiquei fora de perigo, fiquei de cabeça branca. perdi meus dentes, meus olhos, costurei, lavei, fiz doce, minhas mãos se escalavraram, meus anéis se dispersaram, minha corrente de ouro pagou conta de farmácia” “O caso do vestido”, Carlos Drummond de Andrade eu estou pensando na morte desde os vinte anos de idade, mas a morte não chegou, ainda. ando por diversas ruas, praças, passei pontes, rios, não tenho parentes aqui na cidade onde moro para poder visitar, espairecer, me alimento mal, quase não falo, eu, quase, não sei de nada, tive sérios problemas de saúde, ficando entre a vida e a morte, quatro meses em coma e desenganado, mas a morte não chegava, estou de cabeça e barba brancas, tenho poucos dentes remanescentes, meus olhos com catarata, não sei costurar, mas lavei roupas, sem máquina de lavar, na mão mesmo, por mais de seis anos, fiz poucos doces, porque não sabia e não tinha um caderno de receitas, minhas mãos se escalavraram em trabalhos rudes e pouco remunerados, anéis, correntes de ouro, não tive nada disso, minha despesa de farmácia, depois de tudo, consome mais da metade do meu salário, e nada, nada da morte chegar, uma lástima.

A Naturalidade do Amor em Drummond

“Não posso crer que se conceba do amor senão o gozo físico!” Manuel Bandeira A literatura é atemporal e, mesmo depois de muitos anos, o autor de Claro Enigma ainda nos propõe novos e instigantes enigmas. Como decifrá-los à sombra grandiosa do autor e de sua obra? Sento-me à máquina como quem senta ao pé de um mistério. E desta feita temos pela frente, com o livro O Amor Natural, uma esfinge erótica para decifrar ou então, na pior (?) das hipóteses sermos devorados por essa estátua de puro sexo construída pelos versos incendiados de Drummond. Para quem não conhece da obra do autor senão alguns poemas famosos que caíram no domínio público e se tornaram ditos populares, e aprendeu a gostar e associar estes versos à figura simpática de um velhinho tido como o melhor de todos, e que agora lê O Amor Natural, levará um susto e certamente ficará chocado com a temática e os termos usados pelo poeta. Mas para quem conhece e acompanha o autor em toda a sua obra, livro a livro, poema a poema, saberá que, afinal, a surpresa não é tão grande assim (embora a “voltagem” esteja realmente bem mais elevada). O fato é que a temática erótica sempre esteve presente na obra de Drummond e desde 1984, quando foi publicado o livro Corpo, ela vem crescendo em intensidade. Já no livro seguinte Amar se Aprende Amando, este erotismo se apresenta de forma bem mais dominante até culminar com esse O Amor Natural. Note-se que os próprios títulos dos livros são sintomáticos e dizem bem dessa nova postura do autor. E aqui cabe a pergunta mais enigmática e inquietante: por que o erotismo na obra de Drummond se manifesta principalmente nos seus últimos livros publicados, quando o autor já estava velho? Não há aí uma inversão? Geralmente se dá o contrário, ou seja, a voluptuosidade coincidindo com a impetuosidade própria da idade jovem. A resposta a esta pergunta tem a ver com o eterno conflito Eros x Tanatos, apesar do próprio Drummond ter dito numa entrevista ao Jornal Leia em 1985, que sua temática amorosa só agora se tornava mais visível porque “antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muita tímida que eu sou até hoje”. Acontece que o amor enquanto experiência física (e Drummond nessa entrevista deixa claro a sua intenção de n’O Amor Natural enaltecer o lado físico do amor, desvinculando-o do lado espiritual) é sempre maior e mais forte em situações-limite. Assim, uma baita ressaca física e/ou moral, uma situação de forte pressão emocional, a velhice (que sempre vem acompanhada da possibilidade da morte próxima), a própria ideia de que o nosso fim se aproxima (independente da idade que temos), tudo isso desencadeia um processo de busca de autotranscedência que, por sua vez, se manifesta de diferentes formas. Uma delas, de âmbito puramente físico, é o erotismo levado a extremos de tesão sexual ou de uma paixão absolutamente extremada, chegando em alguns casos ao paroxismo. No caso específico do Drummond me parece que há uma tentativa de elucidação do amor transcendente, destilando-o através de um fino erotismo físico sem meias palavras e sem medo das palavras. E o autor consegue com essa sua tentativa dar a exata medida do prazer em todas as suas variantes e variações possíveis entre dois corpos humanos que, buscando o êxtase físico, tentam na verdade romper o bloqueio do eu insulado, do eu aprisionado que só tem a si mesmo ou nem isso, destituído de qualquer espiritualidade transcendente. A transcendência do amor é uma consequência do ato físico e não uma coisa à parte, separada espiritualmente e que requer, para se completar, uma fusão com o amor físico. Não. Através do gozo físico é que se chega (ou se pode chegar) a alguma forma de transcendência. Exceção feita, talvez, somente para os góticos em determinadas situações apaixonadas e apaixonantes. A metafísica do amor (e do livro) consiste em se tentar, com o prazer físico, atingir alguma espécie de êxtase espiritual que nos daria, por instantes que seja, a sensação de deter a proximidade do fim ou suspender, temporariamente, a ideia da morte, a própria morte em si. Se se pode conseguir isso, somente a experiência pessoal de cada um é que pode revelar. De qualquer forma esse tipo de experiência deve ser tentada, mesmo porque ela é, em tese, acessível a todos os corpos. Mas até que se consiga esse êxtase espiritual via orgasmo, vale a sentença do Bandeira segundo a qual o amor só pode nos dar o gozo físico, o que já não é pouco!
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