Dias de Chumbo
Minha vontade é me dissolver
destruir minha personalidade.
Se houvesse algum ácido ou sal
que eu pudesse ingerir
e que me libertasse,
não do outro que há em mim
(monstro de ternura e culpa e parte
diferente, ainda que irrisória,
do meu processo de embrutecimento).
Mas que me livrasse de mim mesmo,
da vida que tenho levado até aqui,
aniquilando enfim essa coisa amorfa
que não se sustenta nem se suporta e que
no entanto teme a morte ou o esgotamento
da provisão do seu elemento de fuga.
“escurece e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada”
Carlos Drummond de Andrade
Passando a Limpo
Inspirado no poema Procura da poesia, de Carlos Drummond de Andrade.
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
A poesia não deve
ser nunca um desenlace,
uma saída para o impasse.
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Poesia é certeza de conceitos,
de imagens e eu não sei
de nada, apenas acho.
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Não convém só falar
de si mesmo, o tempo todo.
O mundo, eles dizem,
é muito vário e vasto.
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
A poesia, eles ensinam,
deve ser rápida e concisa
e não derrame verborrágico.
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
Se situar no tempo e no espaço,
fazer versos de memória e resgate.
Nada que seja residual porque
poesia não é inventário e se
assemelha à realidade virtual.
Não se deve fazer
poesia assim como eu faço.
A poesia não deve
ser nunca uma
alternativa ao suicídio.
Eu sei,
e faço.
Testemunho de Arquivo
com subsídios de Carlos Drummond de Andrade.
Busco na noite a tua imagem
em perspectiva calma.
Embora essa calma seja
como a dos condenados
que na impossibilidade da vida,
para a sombra caminham resignados.
Deixo-me ficar em perfeita sintonia
com essa tua imagem volátil,
que utilizando de objetos opacos
se dissimula e se esconde.
E quando meus olhos míopes e cansados
da inspeção obstinada
se perdem na transparência dos astros,
a tua imagem sutil volta novamente a brilhar
sobre a quietude dos sonhos adormecidos.
Então revolves em mim
tantos e velhos enigmas
que em pensamento me pergunto,
embora voz alguma possa articular
os rijos lábios na espera diária
pela consumação do que na vida chamamos
realidade ou simples imposição de conceitos.
Mas na eternidade desse momento
em que houve vislumbre de esperança
em tua face diáfana,
não dissemos palavra sequer que pudesse
atestar a possibilidade do sonho
à revelia das atitudes mecânicas
assumidas no cotidiano para se sobreviver
ante ao impacto do eclipse inevitável.
Também nenhuma atitude extrema
não nos permitiu provar o contrário,
e quando houve um silêncio maior
e ásperas se tornaram as palavras,
foi mais uma tentativa de conciliar os destinos
em face a um sonho comum e obscuro.
A noite continua banhando a superfície
translúcida e aparentemente calma das águas,
e talvez o amanhã possa aprofundar nossa visão
rumo a essa verdade líquida e gotejante
que tão intensamente se fez necessária.
1902 - Drummond - 1987
Aqui jaz a poesia
em sua forma mais
plena e vigorosa.
Não há, no mundo,
notícias de que ela
tenha sido
melhor cultivada
do que nas terras
ferrosas dos canteiros
de Itabira.
Estatuto de Ervália
Baseado no poema Casa, de Carlos Drummond de Andrade.
Há de dar para o Santo Cristo,
de poder a poder.
Na praça, a matriz,
de poder a poder.
Ter vista para o Cruzeiro
no alto do Santo Antônio,
de poder a poder.
Casas e árvores
comandando a paisagem.
Há de ter muitos espaços
de portas sempre abertas
ao olho e pisar do povo.
Poeira e barro da estrada
nas salas de visitas.
Rio Turvão nos fundos dos quintais
preservando os segredos
da infância e os cadáveres
de família, sepultados.
Terá um verde pasto
com o Herval escrito
no letreiro conservado,
sintetizando o sonho
do novo e do antigo
afinal reconciliados
nas distâncias encurtadas:
fogão de lenha e internet.
Cidade de muitas lembranças
(“e renda de picumã nos barrotes”),
lavouras em curvas de nível
e indústrias nascendo do esterco.
Ervália erguida
no trabalho coletivo, flores
aliviando o suor
e o cansaço dos homens,
recompensados da sede,
da fome e do frio
e do convívio com os mortos.
E as crianças que brincam
resgatando o passado
no presente infinito.
E que todas as pessoas esperem
o dia seguinte
e a Biquinha
alimente a sede
dos projetos futuros.
Ervália há de ser tudo isso,
mais o que sonhamos,
mais os poemas dormidos,
mais a água da chuva nos vidros,
mais os desenhos das nuvens,
mais tudo o que brota
deste solo vermelho e
um sol filtrado através das folhas
de bananeiras e das cercas de arame farpado.
E que todos os ervalenses
escrevam a história de uma terra
que seja a casa de todos,
do contrário não será nunca
a nossa cidade que somos
e que amamos ser,
na distância do encontro
e no silêncio (Careço) das almas.
Considerações a Respeito do Homem
Drummond revisitado.
Os homens
não sabem que são homens
se soubessem, rejeitariam o nome.
O homem
desconhece o outro homem
que vive dentro ou fora dele
e que nunca foi visto.
O homem
e o absurdo de ser homem.
O homem
não tem consciência
do que viria a ser o homem
em sua acepção genérica.
O homem
é o estereótipo do homem.
O homem
é específico como o bicho
pior que isso, é dual
é indivíduo e social.
O homem
não suporta o peso de ser homem.
O homem
não tem importância alguma
para o próprio homem.
O homem
e o desespero de ser homem
não sendo, na ilusão de ser.
Os homens
quando reunidos em sociedade
não formam um todo, sequer uma parte.
Formam apenas uma irmandade
a caminho do nada.
Um homem
não destruirá um outro homem.
A arte, tenho esperança,
humanizará o homem.
Paródia ao Brasileiro de Drummond
Eu também já fui brasileiro
cidadão como vocês.
Dedilhei guitarra, guiei voyage
e aprendi na porta dos bares
que a ideologia é uma ilusão.
Mas chega um tempo em que os bares se fecham
e todas as esperanças se perdem.
Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para estrelas,
pensava logo em mulher
e outros instintos selvagens.
Mas eram tantas, no céu distante,
minha poesia perturbou-se.
Eu também já tive meu ritmo.
Escrevia isso, publicava aquilo.
E meus amigos se afastaram,
meus inimigos me ignoravam.
Eu sozinho deslizava
orgulhoso de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não escrevo mais não,
não sou orgulhoso mais não,
não tenho nada mais não.
A Dissolução do Mito
Toda história é remorso,
dessa forma Orfeu perde
e recupera Eurídice, contínuas
vezes, e ela sempre lhe escapa
na cambraia da cama como um
fantasma gestado na irrealidade
dos fatos.
Inútil tentar reavivar os grandes
amores com a tocha olímpica da
sede insaciada, pois sempre se olha
para trás e constata a perda infinita
e renovada que dissolve na escuridão
dos sonhos.
Toda história de amor é a história
de um anseio que apaga o fogo
quando, absoluto, ergue-se o medo
pelo preço do resgate e fixa-se na
memória a imagem de uma estátua
suja de sal e de desespero póstumo
do adeus.
“Enquanto eu, avaliando o que perdera,
Seguia vagaroso, de mãos pensas”
Carlos Drummond de Andrade
A Falta que Ama
Drummond nos ensina
a recompor a vida na
linguagem simbólica
em percurso saudades
da infância no morro
dissolvido: cinzas do Cauê.
Confidências de um Ervalense
com subsídios de um Poeta Itabirano.
...de Ervália trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este velho balaio feito pelas mãos do Aleijadinho da Vila,
esta compra de embornal direto da venda do Joãozinho Bertoldo,
esta vergonha, esta cabeça baixa.
tive uns dinheiros, tive uma novilha,
tive sítios orvalhados.
hoje sou funcionário público aposentado.
Ervália é apenas uma capa de Antologia,
mas como dói.
Corpo
foi preciso
que eu fosse
envelhecendo
para entender
(em parte) o
erotismo tardio
nos poemas de
Drummond.
é que precisamos
ir perdendo para
poder reconquistar.
é preciso ir morrendo
pra aprender a gostar
da vida e tentar
(quando não é mais possível)
usufruir da beleza da água
que acabou de passar.
Drummond Revisitado
Stop.
a vida parou
ou foram os relógios?
Retorno ao Final
protagonista
de minha vida pregressa
hoje sou coadjuvante
de ruínas.
nas águas do rio
fiz algumas tentativas
mas acabei afogando
na correnteza.
mudei de fase:
virei pescador
de sonhos frustrados
à beira dos barrancos.
galopei como quem
sonha por estradas
poeirentas de Minas
Gerais, sozinho.
empinei pipas e
papagaios em céus
nevoentos de minha
infância distante.
virei (ou tentei virar)
compositor de vanguarda
e fiz parcerias utópicas
com célebres defuntos.
amante de belezas glaciais
as mulheres passaram
por minha vida como
barcos à vela naufragados.
fui poeta das condolências
em velórios de interior
quando o defunto era
o que menos importava.
candidatei a representante
do povo, mas não tinha
propostas viáveis no bolso
da algibeira rota e furada.
“meu Deus, por que me abandonaste?
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco”
Carlos Drummond de Andrade
Poema Sobre Trechos de Drummond e de Augusto dos Anjos
“já não adianta procurar
minha querida filha (Maria) Luiza
que enquanto vagueio pelas cinzas do mundo
com inúteis pés fixados, enquanto sofro
e sofrendo me solto e me recomponho
e torno a viver e ando,
está inerte
cravada no centro da estrela invisível
Amor.”
Carlos Drummond de Andrade
os prestadores de serviço
chegam em minha casa
e não percebem a minha
presença opaca.
se dirigem aos outros
moradores e os saúdam
com apertos de mãos
e acenos de cabeça.
não faz mal
habito o reino
das sombras
onde impera
o trono do caos.
mas não estou só
e toco com luvas
de pelica a “palidez
das fotosferas mortas”
ao meu lado (igualmente
invisível) está a minha
filha Maria Luiza que
me faz companhia.
“e repousa em meu ombro
o seu ombro nenhum” e
seguimos juntos por
entre estrelas invisíveis
Claro Enigma
Chovia. E a música folk
me induzia a dedilhar um
passado de nostalgia. Eu
estava fotografando um
cemitério para selecionar
as fotos que entrariam na
versão final do livro fúnebre.
Anoitecia. E a pintura escura
me impelia a encerrar logo
o trabalho, faltando ainda
algumas covas próximas
ao muro da parte de cima,
mais ou menos a duas alas
antes de se chegar na escada.
Amanhecia. E eu alucinado,
pois havia reconhecido uma
catacumba de uma moça bonita
falecida há pouco e eu não sabia:
quis aproveitar o momento único
na terra fofa que envolvia o corpo.
As Impurezas do Branco
Debaixo do espelho das águas
uma silhueta de menina
desliza de biquíni azul
na parte rasa da piscina.
Seus longos cabelos de cachos
castanhos alisados pelo cloro
introduzido no pensamento
obsceno de quem observa.
Mas nem tudo era azul
sob a epiderme manchada
de um sol que abrasava as
partes brancas e imaculadas
do ladrilho lavado todos os dias.
A Visita
De súbito a chuva cessou.
Ponho-me a escrever sobre ti,
criatura sem carne
que me visita.
Não sei de onde vens,
mas sempre chegas
nas horas mais extenuantes
de minha fuga.
Fecho portas e janelas
para não te permitir
livre acesso sobre mim,
que de cansado me basto.
Mas tu me vens sem ser chamada
e mesmo sem chegar em forma clara,
sei que és minha consciência,
e te incorporo.
Fogo-Fátuo (Ignis Fatuus)
“e ficam tristes e no rastro da tristeza chegam à crueldade”
Carlos Drummond de Andrade
fica estabelecido que
os meus concidadãos,
mesmo aqueles que
moram em águas-furtadas
serão livres à maneira deles.
fica estabelecido que
apesar do sonho já
ter acabado desde
o anúncio de John Lennon,
será permitido às crianças.
“deus é um conceito
pelo qual medimos
nossa dor
eu vou dizer novamente
“deus é um conceito
pelo qual medimos
nossa dor.”
essa é a realidade!
Tristeza no Céu e na Terra
“No céu também há uma hora melancólica.
Hora difícil, em que a dúvida penetra as almas.
Por que fiz o mundo? Deus se pergunta
e se responde: Não sei.”
Carlos Drummond de Andrade
cinco anos de
negociação
sobre a venda
de uma casa
exauriram
as minhas forças.
antigamente havia
um pé de coqueiro
que, ao cair, num
dia de tempestade
atravessou o quintal.
caiu enviesado no terreiro.
era alto e bonito, porém,
vulnerável e com o tempo
as suas raízes fibrosas
perderam o contato com o solo
e com a realidade dos fatos.
aquelas raízes ficaram então soltas
como braços suspensos no vácuo
e, sem sustentação auxiliar, num dia,
o coqueiro tombou atravessado diante
dos olhos infantis pasmos e incrédulos.
caiu como um marco
divisório e não
percebemos que
ali estava a lição
da partilha igualitária
e harmônica entre oito.
(depois, com o dinheiro
nas mãos, faríamos as
devidas compensações).
folhas para um lado,
cachos para outro
e os coquinhos
alimentavam a todos
em nosso apetite juvenil.
agora que já somos velhos
nós não retiramos os entraves
de uma partilha necessária
e urgente, posto que o tronco
simbólico do coqueiro caído
impedia o livre fluxo do que somos.
era a “insustentável leveza do ser”
como disse o Milan Kundera e a
família se desbota e perde o vinco
e de fora a fora, nada se sustenta.
Nova Noite
“Mire veja: o mais importante e bonito, do mundo é isto:
que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas – mas que elas vão sempre mudando. Afinam e desafinam”.
Guimarães Rosa
O limite são os meus pulos.
A estampa nos meus lábios.
Aquele trauma em meu não.
O meu amor rompe a noite nova.
O meu inimigo dentro de mim.
E a mesma ausência, sempre.
Sou o enterrado vivo
do poema do Drummond.
A Origem dos Ferreiras Ou a Descrição de um Estado de Espírito
“Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça”.
Carlos Drummond de Andrade
UM POUCO DA GENEALOGIA
“Por volta de 1170 eu tinha um longínquo ancestral chamado Dom Álvaro Rodrigues Ferreira, rico-homem do reino de Leão, senhor de Meilas, hoje Mancille de La Serra, em Castela-a-velha, o qual se diz ter sido meirinho de Leão, senhor do Solar da Vila de Ferreira, ainda hoje denominada de Herrera de Rupisverga, nas Astúrias, em Santilhana, na Espanha. Seu filho, Dom Fernando Álvares Ferreira, viveu em Portugal no Paço de Ferreira, situado na freguesia de S. João de Eyris, concelho de Aguiar de Sousa, comarca do Porto, província do Minho; e serviu ao rei Dom Sancho I, de quem foi rico-homem e dele recebeu em mercê muitos herdamentos no referido concelho. O brasão de armas da família foi concedido aos Ferreiras em 1170”.
A CONCENTRAÇÃO DAS IDIOSSINCRASIAS
Já no final do século XX, em Ervália, nas Minas Gerais do Brasil, no bairro São Pedro, havia a remanescente “Casa dos Ferreiras”, local de contação de histórias e de aprendizado: avós, tios, primos e sobrinhos sentavam-se ao redor do fogão de lenha, sobre bancos de madeira e tomava-se café em canecas de alumínio penduradas sob ganchos fincados na madeira numa espécie de sanefa. A atmosfera era pesada e engraçada: pragas, lamentações, queixas e suspiros profundos, intercalados, cortavam o ar enclausurado. Ali o relógio do tempo havia parado e ninguém pensava nas origens de nada, além de uma certa raiva e o sorriso amargo da própria desgraça. Desta genética dos Ferreiras não herdei apenas as ideias, mas também as dificuldades, próprias aos temperamentos discrepantes e imaginativos.
A Origem dos Rezendes Ou a Ironia não faz mal a Ninguém
“Conserva em mim ao menos a metade
do que fui de nascença e a vida esgarça”.
Carlos Drummond de Andrade
UM POUCO DA GENEALOGIA
“Por volta de 1030, Dom Rosendo Hermigiz, bisneto do 6º rei de Leão, Dom Ramiro II (falecido no ano de 950), se estabelece em Beira Alta (Portugal), nas terras que recebeu do rei D. Fernando Magno, por tê-las conquistado dos Mouros. É o primeiro senhor cristão a povoar a região, que recebe seu nome (Rosendo), fundando aí a casa e a Quinta do “Paço”, que deu lugar ao povoado. O primeiro a utilizar a forma “Resende” como apelido, tomando-o do lugar de que era senhor, foi Dom Martim Afonso de Bayão, o “de Resende”, também descendente do rei Ramiro II. Afonso Rodrigues de Rezende, sobrinho de Dom Martim, recebeu o brasão da Família Rezende do rei de Navarra, Felipe III”.
A DISPERSÃO DA ENERGIA
Por volta de 1962, Milton Carlos Ferreira de Rezende, tataraneto de José Pereira de Rezende (nascido no ano de 1802), nasce em Ervália (Minas Gerais), nas terras que recebeu o nome em homenagem ao Marquês do Herval, militar gaúcho que se destacou na Guerra do Paraguai. É um dos poucos poetas a frequentar a região, e herdou do pai o nome; que recebera ali a casa e um sétimo da “Fazenda São Domingos”, no município de Araponga (MG). O primeiro a utilizar a forma “Ferreira Jr” como pseudônimo foi ele, tomando-o emprestado da família do Causolino, seu avô materno. Milton Carlos Rezende, o “Dierval”, também descendente dos Andrades, recebeu a instrução primária no Grupo Escolar Capitão Américo Taveira e, desde então, escreve versos para inaugurar uma nova fase.
Propriedades Organolépticas
“ao nosso redor é possível distinguir várias cores, mesmo quando estamos sob a luz do Sol, que é branca”
não me sinto em casa nesta casa.
ao sair ou ao entrar não vejo mais
a placa “coragem” a nos encorajar
na luta brava e aflita da cidade rude.
na parede da sala não vejo mais
os 3 pratos de barro com desenhos
primitivos e o quadro do “cangaceiro”
e os panos costurados na velha máquina
que foi da minha avó, funcionando ainda.
na cozinha o quadro de gesso representando
a santa ceia numa época em que eu saía
para ganhar o nosso pão de cada dia, hoje
substituído por empréstimos bancários
ou mesmo algumas doações familiares.
o sino dos ventos, o relógio de parede
(lembranças de Ouro Preto), o aparelho
de som que tocava: poderia ainda tocar
as canções de rock’in’roll em discos de vinil
e o menino Jesus de Praga de pescoço colado.
o pequeno aquário com a sua legenda
do século XIII, de autoria desconhecida
colada no vidro vazio: “o peixe sabe de
tudo e nada”. o Jesus Cristo “hippie”
num quadro sobre a porta do banheiro,
sem a sua famosa cruz de madeira pesada.
as antigas máquinas datilográficas
(eram três) esperando que dedos saudáveis
escrevam outros versos no tic-tac
varando a madrugada a martelar poesia.
o viveiro já vazio, abandonado sob alguma
cobertura de telhas de amianto sem emitir
nenhum som, de ave, de sonho, ou lembrança
da infância. a ampulheta, a velho violão preto,
a kombi de brinquedo a nos lembrar do Enrico.
no escritório exclusivo o quadro dos Beatles
numa moldura sob vários ângulos, com eles
atravessando a Abbey Road, o rádio de madeira,
a foice amolada para alguma eventualidade.
o violão desafinado nunca mais tocado
por dedos que nunca souberam ferir as
notas musicais e hoje silenciado pela
hemiplegia junto com a velhice de moletons.
e aqueles lindos banners a me lembrar de
quando eu era protagonista da minha vida
e não como sou hoje: um coadjuvante de
ruínas e a foto do casal na cachoeira sobre
placas de pedras cobertas de limo esverdeado.
a antiga estante de livros comida por cupins
agora atualizada e repaginada num belo
armário de madeira entupido de livros e as
leituras por fazer e as sequelas do avc.
a bonita faca de cabo de madrepérola
no fundo de uma gaveta, junto com o punhal
que foi do meu pai e seu cabo de metal e lâmina
que vai se afunilando até a extremidade finíssima
a desafiar, a instigar e a sua visão reconfortante.
sabor é aquele de quando se mastiga algo
e se esquece de que já não se tem dentes
e de suas gengivas escorrem uma gosma
purulenta e o seu quarto e a sua cama que
são mal-assombrados por contos cabulosos.
e ao final e ao cabo
a constatação do Drummond:
“as coisas. que tristes são as coisas,
consideradas sem ênfase.”
Sobre Sonho e Realidade
O meu sonho de consumo agora se restringe a um kit apagão, com direito a lamparina, lampião a gás, uma charrete e um carro de boi. A minha evolução, como a do Brasil, se dá de maneira a retornar dois passos ao passo dado. Caminho para trás e a minha situação de vida só se degrada. Quando me impulsiono para frente o faço com elástico emprestado que acaba por retesar e me puxar de volta para trás, para trás do ponto de onde eu anteriormente estava. Parece faltar-me uma atitude literária mais concreta e de como nosso pequeno espaço de homens silenciosos vai se diminuindo. Penso que na verdade nós também temos diminuído muito juntamente com a perda do espaço de refinamento estético-literário-artístico-musical do qual falamos. Temos diminuído porque os espaços estão se restringindo ou os espaços estão se restringindo em função da nossa dissolução? Não sei, há muito que só faço flutuar na piscina dos acontecimentos sem jamais conseguir tomar pé das coisas. Se parei de escrever em grande parte foi porque parei de sentir as coisas com o pensamento. Sinto tudo de uma forma vaga e com os sentidos apenas. Meu pensamento agora é um pântano disforme e então eu bebo para acabar de dissolver os últimos neurônios sensitivos do pensamento remanescente. Deito e ouço o som de patas de cavalos na rua. São muitos e parecem fazer parte de uma procissão macabra. Outro dia sonhei que estava num sítio e que pegava as coisas da roça tipo ovos, frangos, verduras, porcos e passava tudo para um disquete de computador e depois formatava-os. Aquela história do “no elevador penso na roça e na roça penso no elevador”. Não sei, estarei ficando louco? Impossível, pois sou limitado demais para sair de mim mesmo seja a que título for. Um ser insulado é um ser insulado e eu nunca passarei disso. Ah, quem dera que eu pudesse me derramar de alguma forma, sair de mim e nunca mais voltar. Fechar a porta com chave porque na verdade eu não gosto do meu lar em mim. Eu decepciono-me comigo a cada dia e a toda hora, mesmo agora. Entretanto eu ando lendo em cursivo medieval e vertendo para o português corrente a fantástica obra Necronomicon, do árabe louco Abdul Alhazred.
Tudo Somado Devias
atual estágio terminal da minha vida: tragédia anunciada e criada por mim, num entrelaçar de dúvidas invariavelmente adiadas para fora de todo o tempo e lugar, a precipitar-me de vez nas águas claras.
O Radioamador Fantasma
reuni a turma para o trabalho
de desagravo do casal que fora enganado
pela “mão grande” do grileiro Waldir
a ordem era clara
rapto seguido de tortura e morte
com subsídios de Reinaldo Domingos.
chamei pelo rádio que eu operava em PX2
na minha cabine desativada desde a minha morte,
que ninguém ainda tomara conhecimento
os homens carregam a raiva e a crueldade,
mas os defuntos carregam mais, pois tudo
sofreram e sabem e é um ódio seco e cego
que não admite condescendências
a convocação surtiu efeito e logo eles foram aparecendo:
Pitimbado
Tijolo
Pé de borracha
Asa de canela
Tubarão
Munheca quebrada
Pirata
Trovão
Mata rato
Laranjinha
Pé de boi
Lobão
Bombeiro
Munheca de pau
Pássaro solitário
Escuna vermelha
Pé de vento
Fórmula pesada e
Macanudo esparadrapo
vieram todos, sem defecções,
e já queriam saber do serviço
na ânsia de se fazer justiça
com as próprias mãos
antes o kit básico de apresentação
a ser entregue à vítima, assustada,
antes da parte mais terrível da história
cartões de saudações
chaveiros
diplomas de conteste
adesivos
camisetas
bonés
e logo em seguida o tal Waldir já seria
“pó e pus no arame” da cerca que ele não respeitou
naqueles dois lotes que ele roubara em Jacutinga.
ficarão, de mostruário, em Sapucaí
a cabeça e o corpo escalpelados
e empalados como flâmulas.
Cinderela
a menina de pijama roxo
olha para o lado direito e
conversa comigo nos meus
sonhos de criança
e ela conta uma história
verídica acontecida há
muitos anos naquela
casa lá na Capivara
“era uma vez, no reino do impossível, em que a menina saiu de sua casa
para encontrar-se com o poeta que vivia preso na sombra que ela projetava
através da fotografia, quando estava sentada em sua cama de princesa
levantou do seu sono de anjo e, na pressa de sair, esqueceu-se de trocar
de roupa e assim foi parar naquele ponto de ônibus com seu pijama roxo
e os cabelos presos, pois estava muito frio e com a grama verde orvalhada
o poeta morava no pântano e ficou feliz com aquela visita inesperada,
e depois de tudo até fez um poema pra ela mostrar lá na escola, mas na
roça daquela época não tinha escola e então ela colocou no seu balaio”
A poesia era mais ou menos assim:
tinha uma ponte
no meio do caminho
no meio do caminho
tinha uma ponte
tinha uma ponte
e essa ponte era
uma fonte de luz
que brotava da pedra
que havia no meio
do caminho do poeta
mas na hora da travessia soaram as doze badaladas
e a menina do pijama roxo voltou para o seu quarto,
e quando o dia amanheceu ela já não se lembrava
de nada e falou que aquilo era só uma blusa rosa
o poeta que vivia escondido no pântano sorriu
e todos foram enfrentar a realidade, e o retrato
permaneceu ali alimentando os sonhos nossos
de cada dia enquanto a vida geral prossegue
se era blusa ou se era pijama
nada disso importava
(nem mesmo a sua cor)
para o reino do impossível
em que estamos pisando.
Configurações
Acordo sempre
e invariavelmente
às 3 h da madrugada.
Geralmente é sede
e vontade de ir
ao banheiro.
Lavo meu rosto
e no espelho quebrado
a minha cara está
uma lástima. Daqui
há pouco o celular
irá despertar,
e se paro um pouco
pra pensar na vida
a minha vontade
é de desativar
todos os mecanismos
que conspiram com
a manhã seguinte.
“O essencial é viver”
mas dói abrir os braços
e não encontrar você.
Este Meu Livro
“Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinquenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco”.
Machado de Assis
esse livro que eu venho escrevendo e que, provavelmente, deverá ser o último da minha carreira como poeta e escritor, e para o qual estão faltando 10 poemas que espero concluir ainda este ano de 2026, sem esquecer a lição do Drummond: “não forces o poema a desprender-se do limbo”. é que nesse corrente ano eu completo 40 anos de estrada literária, desde a minha estreia em 1986 com o livro “O Acaso das Manhãs”, daí que eu pretendo publicar este novo livro ainda este ano para marcar esse acontecimento. Será que eu terei os cinco leitores esperados pelo Machado de Assis, já que os cem imaginados por Stendhal seria uma meta muito ambiciosa para este “rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes e vindo do interior”? cest’la vie.
Pânico na Avenida II
As situações de vida
em minha ex-cidade
são como fantasmas
no espelho nostálgico
da minha memória.
É o mesmo que ausente
percorrer um casarão
tombado pelo patrimônio
e tombar realmente, numa
queda surda e repleta
do pó da história.
Em minha antiga rua
havia ao menos rostos
antigos a andar na rua.
E eu era um deles
hoje sou incógnita
e não me reconheço
na paisagem insólita.
À noite o sono é vigília
nas figuras das paredes
do meu escritório.
Drummond, Beatles e Lula
fixam-me de suas molduras
enquanto eu sonho estar longe.
Fora isso a vida transcorre
inexorável rumo ao seu desfecho.
Livro na Gráfica
o penúltimo livro de minha
carreira segue para a gráfica
já não se usa a linotipia como
método de impressão, mas fica
a sensação de algo que perdemos
na correria do final dos tempos.
que seja!
“vem da sala de linotipos
a doce música mecânica”
Carlos Drummond de Andrade
Sobre um Mote de Drummond
“saí pensando na morte, mas a morte não chegava. andei pelas cinco ruas, passei ponte, passei rio, visitei vossos parentes, não comia, não falava, tive uma febre terçã, mas a morte não chegava. fiquei fora de perigo, fiquei de cabeça branca. perdi meus dentes, meus olhos, costurei, lavei, fiz doce, minhas mãos se escalavraram, meus anéis se dispersaram, minha corrente de ouro pagou conta de farmácia”
“O caso do vestido”, Carlos Drummond de Andrade
eu estou pensando na morte desde os vinte anos de idade, mas a morte não chegou, ainda. ando por diversas ruas, praças, passei pontes, rios, não tenho parentes aqui na cidade onde moro para poder visitar, espairecer, me alimento mal, quase não falo, eu, quase, não sei de nada, tive sérios problemas de saúde, ficando entre a vida e a morte, quatro meses em coma e desenganado, mas a morte não chegava, estou de cabeça e barba brancas, tenho poucos dentes remanescentes, meus olhos com catarata, não sei costurar, mas lavei roupas, sem máquina de lavar, na mão mesmo, por mais de seis anos, fiz poucos doces, porque não sabia e não tinha um caderno de receitas, minhas mãos se escalavraram em trabalhos rudes e pouco remunerados, anéis, correntes de ouro, não tive nada disso, minha despesa de farmácia, depois de tudo, consome mais da metade do meu salário, e nada, nada da morte chegar, uma lástima.
A Naturalidade do Amor em Drummond
“Não posso crer que se conceba
do amor senão o gozo físico!”
Manuel Bandeira
A literatura é atemporal e, mesmo depois de muitos anos, o autor de Claro Enigma ainda nos propõe novos e instigantes enigmas. Como decifrá-los à sombra grandiosa do autor e de sua obra? Sento-me à máquina como quem senta ao pé de um mistério. E desta feita temos pela frente, com o livro O Amor Natural, uma esfinge erótica para decifrar ou então, na pior (?) das hipóteses sermos devorados por essa estátua de puro sexo construída pelos versos incendiados de Drummond.
Para quem não conhece da obra do autor senão alguns poemas famosos que caíram no domínio público e se tornaram ditos populares, e aprendeu a gostar e associar estes versos à figura simpática de um velhinho tido como o melhor de todos, e que agora lê O Amor Natural, levará um susto e certamente ficará chocado com a temática e os termos usados pelo poeta.
Mas para quem conhece e acompanha o autor em toda a sua obra, livro a livro, poema a poema, saberá que, afinal, a surpresa não é tão grande assim (embora a “voltagem” esteja realmente bem mais elevada). O fato é que a temática erótica sempre esteve presente na obra de Drummond e desde 1984, quando foi publicado o livro Corpo, ela vem crescendo em intensidade. Já no livro seguinte Amar se Aprende Amando, este erotismo se apresenta de forma bem mais dominante até culminar com esse O Amor Natural. Note-se que os próprios títulos dos livros são sintomáticos e dizem bem dessa nova postura do autor.
E aqui cabe a pergunta mais enigmática e inquietante: por que o erotismo na obra de Drummond se manifesta principalmente nos seus últimos livros publicados, quando o autor já estava velho? Não há aí uma inversão? Geralmente se dá o contrário, ou seja, a voluptuosidade coincidindo com a impetuosidade própria da idade jovem.
A resposta a esta pergunta tem a ver com o eterno conflito Eros x Tanatos, apesar do próprio Drummond ter dito numa entrevista ao Jornal Leia em 1985, que sua temática amorosa só agora se tornava mais visível porque “antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muita tímida que eu sou até hoje”. Acontece que o amor enquanto experiência física (e Drummond nessa entrevista deixa claro a sua intenção de n’O Amor Natural enaltecer o lado físico do amor, desvinculando-o do lado espiritual) é sempre maior e mais forte em situações-limite.
Assim, uma baita ressaca física e/ou moral, uma situação de forte pressão emocional, a velhice (que sempre vem acompanhada da possibilidade da morte próxima), a própria ideia de que o nosso fim se aproxima (independente da idade que temos), tudo isso desencadeia um processo de busca de autotranscedência que, por sua vez, se manifesta de diferentes formas. Uma delas, de âmbito puramente físico, é o erotismo levado a extremos de tesão sexual ou de uma paixão absolutamente extremada, chegando em alguns casos ao paroxismo.
No caso específico do Drummond me parece que há uma tentativa de elucidação do amor transcendente, destilando-o através de um fino erotismo físico sem meias palavras e sem medo das palavras. E o autor consegue com essa sua tentativa dar a exata medida do prazer em todas as suas variantes e variações possíveis entre dois corpos humanos que, buscando o êxtase físico, tentam na verdade romper o bloqueio do eu insulado, do eu aprisionado que só tem a si mesmo ou nem isso, destituído de qualquer espiritualidade transcendente.
A transcendência do amor é uma consequência do ato físico e não uma coisa à parte, separada espiritualmente e que requer, para se completar, uma fusão com o amor físico. Não. Através do gozo físico é que se chega (ou se pode chegar) a alguma forma de transcendência. Exceção feita, talvez, somente para os góticos em determinadas situações apaixonadas e apaixonantes.
A metafísica do amor (e do livro) consiste em se tentar, com o prazer físico, atingir alguma espécie de êxtase espiritual que nos daria, por instantes que seja, a sensação de deter a proximidade do fim ou suspender, temporariamente, a ideia da morte, a própria morte em si. Se se pode conseguir isso, somente a experiência pessoal de cada um é que pode revelar. De qualquer forma esse tipo de experiência deve ser tentada, mesmo porque ela é, em tese, acessível a todos os corpos. Mas até que se consiga esse êxtase espiritual via orgasmo, vale a sentença do Bandeira segundo a qual o amor só pode nos dar o gozo físico, o que já não é pouco!