Numa estrada de Minas, pedregosa: ao encalço de Drummond apresenta uma coletânea de poemas e prosas de Milton Rezende que estabelecem um diálogo profundo e confessional com a herança literária de Carlos Drummond de Andrade. Na obra, Milton explora temas como a solidão, o envelhecimento e a busca pela identidade mineira, fundindo memórias pessoais em Ervália com referências clássicas da literatura brasileira, como Manuel Bandeira, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa e Machado de Assis. No entanto, o protagonista aqui é, do começo ao fim, Drummond, sobretudo o Drummond poeta.
A obra revisita o erotismo tardio e a melancolia drummondiana, transformando a influência do mestre em uma ferramenta para investigar a própria finitude. Entre genealogias familiares e reflexões sobre o fazer poético, Milton Rezende utiliza a intertextualidade para narrar sua trajetória de quarenta anos de literatura. O resultado é um mosaico íntimo que homenageia a tradição de Itabira enquanto expõe as ruínas e sonhos de um poeta contemporâneo.
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Carlos Drummond de Andrade, nosso poeta maior, é o arquiteto de uma identidade nacional que transformou o minério de Itabira em poemas universais. Sua trajetória — a migração das montanhas ferrosas de Minas Gerais para o modernismo cosmopolita do Rio de Janeiro — estabeleceu uma genealogia poética que ainda assombra e alimenta a literatura brasileira. Drummond carregou Itabira na sola do sapato, fazendo do isolamento provinciano a matéria-prima para o seu “sentimento do mundo”.
Neste cenário de permanência, surge a obra de Milton Rezende. Em Numa estrada de Minas, pedregosa: ao encalço de Drummond, o autor ervalense não se limita a uma homenagem ou influência passiva. Ao contrário, ele opera uma apropriação antropofágica do mestre itabirano. Milton estabelece uma tensão dialética entre a tradição de Drummond e a realidade de Ervália dos séculos XX e XXI, revisitando o “gauche”, o cotidiano e a província como feridas abertas que pulsam sob o solo vermelho da Zona da Mata.
A persona poética de Drummond cristalizou-se no “anjo torto” do Poema de Sete Faces. O “gauche” drummondiano é o indivíduo que caminha na sombra, marcado por um desajuste social e uma timidez que o impede de se integrar plenamente à engrenagem do mundo. No entanto, ao atualizar essa estética do desajuste, Milton Rezende radicaliza a inadequação, transformando o deslocamento social em uma pulsão de aniquilamento existencial.
Enquanto o “eu lírico” de Drummond se observa com ironia melancólica, o “eu lírico” de Rezende, especialmente em “Dias de chumbo”, busca uma dissolução visceral:
Minha vontade é me dissolver
destruir minha personalidade.
Se houvesse algum ácido ou sal
que eu pudesse ingerir
e que me libertasse,
não do outro que há em mim
(monstro de ternura e culpa e parte
diferente, ainda que irrisória,
do meu processo de embrutecimento).
Mas que me livrasse de mim mesmo,
da vida que tenho levado até aqui,
aniquilando enfim essa coisa amorfa
que não se sustenta nem se suporta e que
no entanto teme a morte ou o esgotamento
da provisão do seu elemento de fuga.
Há aí um desejo de aniquilação química: a voz poética clama por “algum ácido ou sal” que a liberte de si mesma, visando destruir a personalidade e aniquilar a “coisa amorfa” que é o eu.
Em “Paródia ao brasileiro de Drummond”, Milton Rezende subverte o ritmo drummondiano para admitir um esgotamento total:
Eu também já tive meu ritmo.
Escrevia isso, publicava aquilo.
E meus amigos se afastaram,
meus inimigos me ignoravam.
Eu sozinho deslizava
orgulhoso de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não escrevo mais não,
não sou orgulhoso mais não,
não tenho nada mais não.
A Drummond, a crônica serviu como um “pacto” com o leitor, uma ferramenta que democratizava a poesia e a literatura ao tratar de eventos triviais, do “nada” cotidiano, nas páginas dos jornais. Milton Rezende adota essa “lição de coisas”, em coletâneas e sites diversos, mas a fundamenta em uma densa carga hereditária.
Ao descrever Ervália, o poeta resgata a “concentração das idiossincrasias” da Casa dos Ferreiras, onde a atmosfera é carregada de “pragas, lamentações, queixas e suspiros profundos” ao redor de um fogão de lenha. Essa conexão entre o trivial e o ancestral é o que permite a Milton Rezende descobrir-se a si mesmo:
Ali o relógio do tempo havia parado e ninguém pensava nas origens de nada, além de uma certa raiva e o sorriso amargo da própria desgraça. Desta genética dos Ferreiras não herdei apenas as ideias, mas também as dificuldades, próprias aos temperamentos discrepantes e imaginativos.
O poeta descobre-se a si mesmo, em diálogo insubmisso com o mestre e seu(s) passado(s), e ao descobrir a si mesmo, descobre que “Não se deve fazer / poesia assim como eu faço. [...] Eu sei, / e faço”.
Milton Rezende, assim como Drummond, é desobediente às regras, explícitas ou subentendidas.
Para Milton, o aprendizado da vida é indissociável da aceitação da finitude, uma “morte necessária” para que se possa, enfim, usufruir da beleza efêmera, como escreve em:
é preciso ir morrendo
pra aprender a gostar
da vida e tentar
(quando não é mais possível)
usufruir da beleza da água
que acabou de passar.
Milton Rezende prova que a estrada de Minas é contínua: sua poesia não é um eco distante de Itabira, mas uma atualização visceral que “devora” Drummond para nutrir as sombras de Ervália. Através dessa apropriação, mantém viva a chama modernista, demonstrando que o “sentimento do mundo” permanece tão urgente e doloroso quanto no século passado, pois é um sentimento demasiadamente humano, demasiadamente mundano.
Sinvaldo Júnior
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