Erotismo Sutil

a tua voz
vindo das
cavernas
dos meus
sonhos.
hoje faz
meio século
em que
eu estou
ao encalço
do amor
sempre
negado.
cheguei
agora
na ponta
da pedra
do poço:
ou eu
salto para
o voo da
morte ou
a ilusão
retoma o
seu ciclo
e amanhã
eu apareço
no local
de serviço.

como eu não morri
procurei propósitos
para tentar entender
o espelho do caos.

quatro meses em coma
induzido e nenhuma
lembrança do ocorrido
comigo, nesse período.

escapuli como um andarilho zumbi
correndo trôpego pelos corredores
do hospital com tubos e aparelhos do cti
onde eu estivera internado e desenganado.

no meio de tudo isso havia uma presença
a me guiar no escuro como um farol luminoso
e eu afundava em ondas elétricas de titânio
no mar revoltoso do amor e seu chamamento.

Estou hoje calado
como se houvesse
roubado o silêncio
dos mortos.

Estou hoje tranquilo
como se a calma
fosse um atributo
dos homens enfermos.

Estou hoje festivo
como se estivesse
numa festa, e lúcido,
como se a lucidez
fosse a própria festa.

Estou hoje vencido
como se soubesse a verdade
e sozinho vou indo mesmo
a uma festa, atendendo ao
convite dos mortos.

cérebro inchado
em recônditas gavetas,
minha cabeça não deixa
de doer. fui de mim
o meu maior inimigo.

Debaixo do espelho das águas
uma silhueta de menina
desliza de biquíni azul
na parte rasa da piscina.

Seus longos cabelos de cachos
castanhos alisados pelo cloro
introduzido no pensamento
obsceno de quem observa.

Mas nem tudo era azul
sob a epiderme manchada
de um sol que abrasava as
partes brancas e imaculadas

do ladrilho lavado todos os dias.

Gostaria de saber
quem são aquelas
mulheres da capa
do livro dos Aflitos. (*)
Quem sabe assim
eu pudesse, voltando
ao passado e aos
costumes antigos,
dar a volta no sentido
contrário aos das moças
e perguntar-lhes:
“Quer voltar?”.
E aí, se fosse aceito o pedido,
eu estaria abrigado sob as
saias e a proteção do grande
guarda-chuvas de uma delas,
a do canto.

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(*) refiro-me à capa do livro “De São Sebastião dos Aflitos a Ervália – Uma Introdução”, de minha
autoria

botão de ouro
primavera
dente-de-leão
rosa
ervilha
cicuta-menor
campainha azul
dulcamara
orquídea
junquilho
narciso
lírio amarelo
flor-de-lis
sépalas
pétalas
androceu
gineceu
ela e eu.

Uma menina encostada
na pedra enorme e dura
(maior que ela e seu traje
minúsculo de criança que
se agiganta diante do poeta).

Coqueiros se erguem no
pátio de grama ao redor
e o sonho de possuir
um pouco daquele púbis
angelical de modo que stop.

O líquido escorre através
das pedras e das pernas
de quem atravessa a ponte
que leva ao outro lado,
atrás de imaginárias nádegas.

o seu corpo
e a curvatura
do púbis
escondido
na calça azul
desbotada.
você de pé
encostada
na árvore
e eu de joelhos.

O céu desaba sobre mim
com sua cara de fogo
e nuvens de cores,
num movimento frenético
no compasso do amor.
Quando terminarmos
e o sol e a lua e as estrelas
forem embora nas alturas,
eu voltarei a ser noite
ou terei incorporado luzes
suficientes para esperar
até a próxima vez?!

Teus olhos plasmáticos
esterilizam os meus braços,
que abraçam pernas de vácuo.
Na ânsia de primeiro náufrago
eu te navego com o meu barco,
marinheiro amando a insensatez
do (a)mar.

Aquele teu short de estrelas
não saiu de minha constelação mental,
em que eu te vislumbrava nítida e nua
e na noite o teu perfume se misturava
aos perfumes da noite, tornando-a impregnada
de um conteúdo que era ao mesmo tempo
ferino e feminino e ardente.
Lembrança de água barrenta na boca
e o teu corpo exposto que estava
ao papel transparente do sol sobre o tecido.

O teu corpo,
pássaro esculpido
no assento do
sofá da sala
de visitas,
é uma ampla sala
onde te visito
(abolida a noção
de sonho
sob o teu vestido),
sempre que o desejo
do corpo desenha
a moldura de um
pássaro
em teu assento

A sombra
que se forma
sob a sua
epiderme
deitada na
árvore é
onde eu fixo
a sua imagem.

A sua imagem
recostada na
árvore de uma
rua de funcio-
nários é aquele
sonho esculpido
em gestos e em
sombras sensuais.

A árvore onde eu
te imprenso em
pensamentos e
beijo o teu sorriso
como quem agarra
o cabelo de quiçaça
da menina bonita
do interior de Minas.

A sua epiderme
morena entre os
vegetais da rua
e um menino
correndo ao seu
encalço e acho
que sou eu deitado
na sombra do asfalto.

“são nove horas da noite
e o show já vai começar”


eu era adulto, distante,
a observar
um grupo de jovens
esvoaçantes ao redor
de um banco de praça.

eram vários,
meninos e meninas,
sentados ou em pé,
adolescentes e eu
como um lince

fixei o meu olhar
em uma delas,
especificamente,
sentada de saia
larga curta e azul.

e era uma coreografia
de pernas em movimento,
pêndulo erótico a fascinar
o homem velho e invisível
de olhar faiscante.

as águas represadas do lago,
nesse vai-e-vem ilusório
e tudo ao redor se dissolvia,
eu absorto entre as pernas
e até parece que vi algo.

Uma fotografia já ensebada
ainda representa para mim
a personificação do prazer
que não compartilhamos,
mas que foi vivido só
e intensamente valendo-se
do recurso de mãos e mente.

Lembro-me de vê-la dormindo
durante uma luta de boxe
e os meus pensamentos mais fortes
atingindo-a em cheio
nos seus flancos de branca carne,
macias ao serem alvejadas.

E eu te fotografava continuamente
buscando novos e diferentes ângulos
que pudessem alimentar aquela
paixão e que realçassem sobretudo
a sensualidade dos seus lábios
entreabertos e meio que dobrados
sobre uma carreira de dentes alvos.

Na tua ausência eu me valia
dos mais diversos meios
que minha imaginação engendrava
para estimular a sensação
que tive ao vê-la agachada junto
a pia da cozinha e aquela sua
coleção de peças íntimas
molhadas dentro da gaveta do armário.

Contemplo os pomares
em fruta e flor
no tecido das folhas
e nas fibras da tua roupa.
Saudade e manga temporã.

Nas árvores as frutas
estão ainda verdes,
mas maduras em tua boca
escorrem o caldo espesso
de manga amor maduro.

Na porta de uma loja
que dá para o quintal
de minha vida, de mãos
dadas com os sonhos
antigos e sob a chuva.

Beraldes e o seu espantalho
espantando do quarto
as minhas lembranças
ruins do passado.

Caldas e o seu frio gelado
durante o turismo rural
nos finais de semana
de amor interminável.

Poços e a sua rodoviária
de domingo à noite, já
voltando do vilarejo de
lua de mel e saudades.

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